São Paulo e CMTC - A Marca do Transporte

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São Paulo comemora, neste final de semana, 471 anos. Fundada em 1554 por padres jesuítas, a cidade foi o centro dos colonizadores bandeirantes durante o Brasil Colônia, mas tornou-se uma força econômica relevante apenas durante o ciclo do café  em meados do século XIX. Posteriormente, consolidou seu papel como principal centro econômico nacional com a industrialização no Brasil no século XX. Seu nome é uma homenagem ao apóstolo Paulo e faz referência ao dia em que o apóstolo se converteu ao Cristianismo. Conhecida como “a Terra da Garoa” devido ao seu clima tropical de altitude, a cidade pertence ao estado mais rico da Federação brasileira, é a maior economia urbana e também um dos principais polos culturais da América Latina. 

Seu desenvolvimento se deve à intensa migração que ocorreu na cidade sobretudo durante o chamado “milagre brasileiro”. Foi neste momento que número populacional aumentou substancialmente. Porém, abrigar e oferecer condições de sobrevivência para um número significativo de pessoas que chegaram à cidade em busca de novas condições de vida, não foi e nunca será tarefa fácil.

O crescimento desmedido de bairros sem um planejamento e sem infraestrutura, devido à especulação imobiliária no centro, fez com que estes novos cidadãos se acumulassem nas periferias e isso acabou gerando novos problemas em todos os sentidos. Um deles era a forma de deslocamento para esta população chegar ao centro para trabalhar, para citar uma de suas necessidades sociais urbanas. E o modal que atendia melhor a esta necessidade, enfrentando toda sorte de condição – inclusive climáticas -, e se esforçava para chegar aos bairros sem um mínimo de infraestrutura (como asfalto e energia, por exemplo) era o ônibus.

Como já dito várias vezes que o ônibus é um elemento tão intrínseco no cenário da cidade que chega a se confundir com a paisagem e, considerando que São Paulo é dona da maior frota de ônibus urbano em operação no mundo, o Portal do Ônibus fará uma breve retrospectiva do transporte, mostrando vertentes distintas e suas modificações. Serão focados três momentos importantes do setor visto que muitas de suas características permanecem até os dias atuais.

Mas para falar sobre o transporte é necessário abrir parênteses e dar um destaque especial àquela que foi uma das mais importantes empresas de ônibus que já atuou na cidade de São Paulo. Sem sombra de dúvidas, é impossível falar em transporte coletivo sem mencionar a CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos), empresa criada na gestão do prefeito Abrahão Ribeiro (em outubro de 1946), na tentativa de reorganizar o transporte caótico que existia na cidade em decorrência de fraca regulamentação operacional, falta de planejamento, degradação de serviços por falta de investimento e omissão, além de uma frota envelhecida. A CMTC passou a ser, então, responsável pela operação e fiscalização do transporte feito por ônibus no município deste período em diante. Em 1947, o prefeito Abrahão determinou que o patrimônio da Light, bondes, auto-ônibus, rede elétrica, trilhos e equipamentos passassem todos para a CMTC. O objetivo era terminar com a briga entre ônibus e bondes e viabilizar o serviço de modo que um modal complementasse o outro e não disputasse como vinha acontecendo.

Com todo este processo de reorganização do transporte nos anos 40, a CMTC passou a ter poder econômico e tecnológico. A partir de 1949, inaugurou seu primeiro sistema de trólebus brasileiro, uma tecnologia completamente inovadora no país. Na década de 50, a empresa tinha tanto poder econômico que importava veículos.

Além de importar veículos dos Estados Unidos, era a maior compradora de veículos nacionais no país.

Entrega de Frota de Ônibus para CMTC em 1948

Outra característica da empresa é que ela também fabricava ônibus convencional e trólebus.

Além dos Trólebus, a CMTC produziu os ônibus a diesel Monika I com motorização Mercedes-Benz e Monika II com motorização FNM.

É bom ressaltar que a CMTC era referência no Brasil e na América Latina, porque além de tudo o que já fazia no sistema (como planejamento, regulamentação, operação, fiscalização para citar algumas de suas atribuições), tinha uma área técnica que desenvolvia tecnologias das quais muitas são aplicadas ainda hoje nos ônibus. A parceria que existia entre a CMTC, as encarroçadoras e montadoras ajudava a desenvolver ônibus de qualidade não só para ela, mas também para as outras empresas. O objetivo era atender de forma cada vez melhor a população de São Paulo, haja vista a quantidade de ônibus que foi testado na empresa.

A CMTC operou em todas as áreas da cidade de São Paulo. Por ser uma empresa pública, estava sujeita à alterações de pintura e atuação para atender aos anseios de quem estava no comando da prefeitura. Apesar disso, houve algumas particularidades nas quais a empresa foi pioneira, então nada mais justo que dar crédito a quem o merece. O projeto Padron (parceria Caio e Volvo), por exemplo. A CMTC foi a 1ª empresa a implantar iniciando com os “Amélias” duas portas com 12 m de comprimento (antes chamados de Padron II).

A CMTC foi pioneira ao integrar ônibus modernos do Projeto Padron em sua frota.

Foi na gestão Jânio Quadros que surgiram as linhas longas na empresa, como a 175T e a 222T (Circular Interbairros) esta última das mais interessantes da operação. Esta linha foi criada em 1986, com o intuito de ligar bairros afastados sem passar pelo centro. Tinha 97,5 km de extensão e demorava mais de 6 horas para ser percorrida. Saía de Santana, na zona norte, e voltava para o mesmo local fazendo o sentido anti-horário, passando pela Freguesia do Ó, Vila Leopoldina, Jaguaré, Vila Sônia, Morumbi, Santo Amaro, Interlagos, Jabaquara, Ipiranga, Sacomã, Vila Prudente, Sapopemba, Água Rasa, Tatuapé, Vila Maria.

A Linha 222T - Interbairros foi criada pelo prefeito Jânio Quadros para apresentar os novos ônibus da CMTC à população.

Aproveitando a mesma imagem exposta acima, esta foi uma das carrocerias marcantes da empresa, sobretudo nas linhas 3141 e 3390 (ambas Term. São Mateus/ Pq. D. Pedro II) onde se ouvia um apelido atribuído a este modelo por ser motor Scania K112. Estes Torinos eram chamados de Trovão Azul (alusão a um helicóptero azul (Blue Thunder) utilizado num filme de ação e suspense protagonizado por dois soldados norte-americanos nos anos 80).

O Fofão, projetado pela CMTC a pedido do prefeito Jânio Quadros, remete aos ônibus de dois andares de Londres.

Outro momento de extrema relevância na vida da empresa foi durante a gestão do prefeito Jânio Quadros. Nesta gestão, apareceu o “Fofão”, um ônibus de dois andares (também fosse chamado de dose dupla, ou belichão pela população), fabricado tanto pela CMTC quanto pela Thamco (Thamer Comércio e Industria de Ônibus).

Como foi dito anteriormente, a CMTC ficava sujeita ao atendimento de anseios dos projetos políticos dos prefeitos, então, um ônibus Double Decker e totalmente vermelho mostrava o empenho da prefeitura na busca “pela melhoria do transporte”. Ver um ônibus vermelho com esta característica circulando pela cidade remetia às pessoas a cidade londrina, causando a falsa ilusão de sistema eficiente, visto que uma “cópia” de modelo europeu. Sem dúvida foi uma carroceria que chamou muito a atenção (e este era um dos objetivos) e despertou interesse nas pessoas em andar para conhecer o interior do veículo, desfrutar da visão proporcionada pelo 2º piso e observar seu desempenho. Eles circularam em algumas linhas e depois concentrados na linha 5111 – Pça da Sé/Term. Santo Amaro. Durante este período, foi estipulado que todos os ônibus da empresa seriam repintados de vermelho (em detrimento dos tons de azul que já acompanhavam a pintura havia anos). Não rodou muito tempo na cidade devido a vários problemas de infraestrutura (altura de rede elétrica de trólebus, ruas e altura de pontes para citar alguns).

Com o encerramento da CMTC, a SPTrans tornou-se a nova responsável pela gestão do transporte urbano em São Paulo.

A CMTC foi extinta em 1995, na gestão do então prefeito Paulo Salim Maluf. A partir daí, a gestão do transporte urbano passou a ser feita pela SPTRANS (São Paulo Transportes). Não obstante seu legado continua vivo em arquivos e nas reminiscências de várias pessoas. Seguem abaixo alguns registros para ajudar a ativar ainda mais estas lembranças.


Veja alguns ônibus da frota da CMTC

CAIO Fita Azul com chassi FNM D-11.000 V-15.
CAIO Jaraguá II com chassi FNM D-11.000 V-9.
CAIO Papa Fila puxado por caminhão FNM.
Ciferal Urbano com chassi FNM D-11.000 V-15.
Trólebus ACF BRill TC-44.
Monobloco Mercedes-Benz O-362.
Monobloco Mercedes-Benz O-362 para criação das linhas Executivo.
Micro-Ônibus Marcopolo Júnior com chassi Puma 4.T.
Marcopolo Veneza com chassi Mercedes-Benz OH-1313
Ciferal Padron Amazonas com chassi Scania BR116 e equipamentos eletricos Tectronic.
Marcopolo San Remo II com chassi Scania BR116 e equipamentos eletricos Tectronic.
CAIO Padron Amélia articulado com chassi Scania B-111 S.
Trólebus articulado, CAIO Padron Amélia com chassi Volvo B58 e equipamentos eletricos Villares.
Trólebus monobloco Mafersa.
Thamco Padron Falcão reencarroçado de monobloco O-362 da Mercedes-Benz.
CAIO Padron Amélia reencarroçado de monobloco O-362 da Mercedes-Benz.
Monobloco Mercedes-Benz O-364 11R.
Monobloco Mercedes-Benz O-364 11R movido a gás de lixo.
Thamco TH2.60E reencarroçado de monobloco O-362 da Mercedes-Benz
Thamco Padron Águia reencarroçado de monobloco O-362 da Mercedes-Benz
Monobloco Mercedes-Benz O-365 11R.
Veículo de Teste CAIO Padron Amélia com chassi Scania S-112 AL
Veículo de teste, CAIO Padron Vitória com chassi Scania K-112 CL.
Monobloco Mafersa M-210 Turbo.
Monobloco Mafersa M-210 Turbo.
Veículo de Teste, monobloco Mercedes-Benz O-371 UP.
Articulado CAIO Padron Vitória com chassi Volvo B58E.
Marcopolo Torino LN reencarroçado de monobloco O-362 da Mercedes-Benz
Marcopolo Torino LN reencarroçado de antigo Torino com chassi Scania K-112 CL
Monobloco Mercedes-Benz O-371 U
Ônibus movido a gás natural fabricado pela Mercedes-Benz, modelo O-371 UG